quinta-feira, 21 de dezembro de 2006

isabel nadal

arrancou uma única página do seu caderno de desenho,
o menino
espalharam-se por todos os lados explodindo novos mundos,
as cores
e veio passaredo mergulhar vôos sob seus pés,
a forma
e veio a chuva de inverno pra despertar os grilos do jardim,
os sons
e veio o brincar correndo entre nuvens inventadas e rios sem margens,
o irmão
e veio o beijo na testa que respirava esperança nos dias por amanhecer,
o pai
e veio o abraço tenro aquecendo-o com acalentos de bons-sonhos,
a mãe
(saudade de quando era o rei escarlate e acreditava na felicidade,
o homem)

segunda-feira, 4 de dezembro de 2006

josé rodriguezuma faísca saltou-lhe os olhos
enquanto o outono rendia-se
às últimas folhas mortas sobre o chão
TRISTEZA
mas era entardecer
e ainda havia tantas cores
por serem inventadas
(a menina soletrou um buraco no céu:
borboletas vieram respirar)

quarta-feira, 22 de novembro de 2006

escutei homens sisudos
abrindo a boca e dizendo
que nada mais passaria
pelas ruas da minha infância
pelos cantos do meu coração
pelos ombros dos meus sonhos
pelas sombras do meu medo
pelos restos da minha morte
pelas cores do meu amanhã
EM SILÊNCIO
mas neles não pude acreditar
porque sabia picadeiro
esse mundo saltimbanco
esse tempo mamulengo
essa vida polichinelo
encharcada de piruetas
de magia e de sorrisos
tingida por um azul-nascente
a trazer alegria para nos encantar

sábado, 11 de novembro de 2006

a menina que eu amo
sorri nuvens:
tem o céu sob seus pés.

segunda-feira, 30 de outubro de 2006



ao meu irmão andré
na pele
o menino encena
passarinhos
o canto das cigarras
a fluidez dos girinos
enquanto busca
as trilhas do destino
pelas vértebras
da infância poente

segunda-feira, 23 de outubro de 2006


no seu mundo de criança
a cor felicidade
escorria pelos dedos
pintores de céus
e poesias que nasciam
esparramadas pelo chão

terça-feira, 17 de outubro de 2006

PEQUENA CANÇÃO
(À MENINA QUE AMANHECE MEUS GIRASSÓIS)

abro buracos no céu
pra ter você
mais perto dos sonhos

desenho trilha de nuvens
pra que a chuva
caia sob teus pés

enfeito de sol os teus olhos
pra que as sombras
repousem longe de ti

arremesso pirilampos ao acaso
pras estrelas cadentes
colorirem o teu mar

(sobrevive em mim a insensatez da poesia)

quarta-feira, 11 de outubro de 2006

UM CANTO DE PRIMAVERA,
GUARDADOR DE MANHÃS

I
piruetas fazia
brincando entre as estrelas
tendo a lua ao seu dispor
era assim que o menino
inventor de auroras
desenhava palavras
colorindo poesias
com os pés descalços de chuva

II
mas eis que a vida cresceu
sem deixar espaço algum
para que ele pudesse crer
naquilo que sonhava
porque a felicidade
de fato não veio
e a vida estatelou-se
sob os olhos miúdos do sol

quarta-feira, 4 de outubro de 2006


redon
pra mari.
no primeiro entardecer de outubro
ouviria sozinho
o cantar das cigarras
em lenta retirada
despertando a próxima estação

(sobre o caderno de desenho
um terno de memórias e alguns lápis-de-cera
era o que restara do sorridente menino
na alma baldia daquele espantalho)

segunda-feira, 25 de setembro de 2006


a menina sorri
e dos seus olhos
girassóis noturnos
trovoam meu coração
espantalho


(primavera)

sexta-feira, 15 de setembro de 2006

pra gabi, numa tarde
longe de tudo




traga um bolo de fubá
para passarmos juntos
esta tarde poente
conversando cores
assobiando lembranças
até a noite bem de mansinho chegar
e com estrelas cadentes
trazer de volta
a felicidade que a vida
esquecida da gente
um dia estancou
sem nos avisar

sexta-feira, 8 de setembro de 2006


eu era um homem silente
fingidor de esperança
fazinhador de ilusões
desenhador de palavras
insone poeta tristonho


mas você chegou
numa tarde qualquer
derramando felicidade
pelos teus cílios-noturnos-de-sonhos
onde repousam libélulas e minúsculas estrelas


mas você chegou numa tarde de setembro
trazendo aquarelas pintadas na alma
uma caixinha de música e girassóis
fazendo da minha vida
um lugar bom de viver



diz então
agora que
nada mais importa
agora que
tudo desabou
sem que eu pudesse escapar

diz então
como habitar
esse vazio
da solidão farta de ti
se é você quem ocupa esse amor
que não ousa abdicar de mim?

domingo, 27 de agosto de 2006


pra hanna v.
uma canção distante
e sem nome
há pássaros
que não fogem
ao sol poente

observam
o que as estrelas trarão
sem ninguém saber

a eles pertence
a iluminura incontida
d’outras auroras

terça-feira, 15 de agosto de 2006

ilustração de kent harfst



CIRANDA DO ESPANTALHO SONHANDO



eu descobri nos teus cílios o sol da minha infância

terça-feira, 8 de agosto de 2006


tarde poente
, pelas ruas da cidade-velha
vejo-te sozinha
a caminhar
de mãos dadas
com o que vive
nas memórias

do rasgo de sombra
dos paralelepípedos
da pequena igreja
e do rio escondido
por trás das paredes em ruínas
dessas casas abandonadas
esquecidas no tempo

esse mesmo tempo
que reluta em passar
como que de propósito
só para te deixar ali
qual fotografia


que não posso abraçar

que não posso sonhar

que não posso amar


(guardo comigo um punhado de felicidade
que será nossa, eu sei
FELICIDADE
escrita em azul-saudade
porque azul-saudade é a cor do céu
quando o sol adormece
nas ruas estreitas
e silenciosas
que a chuva logo mais
irá molhar)

sexta-feira, 4 de agosto de 2006


merello
frágil
cada vez mais
por dentro de ti
pois sei das noites
o grito distante
(olhos de relva)
ruptura
fascínio
um só ruído
horizonte
NASCENDO

segunda-feira, 31 de julho de 2006



yves klein

portanto
eu sei
por detrás dos meus medos
habitar um ladrão de sonhos
inconfesso sepulcro
dessa aridez incontida
(na palma das tuas mãos
eu colheria flores)

terça-feira, 18 de julho de 2006

chagall

amor deveria ter fim
amor deveria nem começar
amor deveria ser explicado
mesmo até, rotulado

amor deveria ser esmigalhado
embalsamado
posto numa gaveta
amor deveria ser domesticado

(costurado ao lado do peito
alimentado pela rotina
um amor de mentirinha
amor-cara-vazia)

no centro da sala
diante dos olhares que julgam
– pois julgar é o que lhes cabe –
de joelhos e amortalhado
o amor é expiado
cuspido e escarrado
mas não se rende


(aglutinam-se imagens,
sons
e preces nesse quadro seco
e sem ossos)

no entanto
se não é amor
essa falta que fazes no meu coração
se não é amor
essa vontade sem fim de estar ao seu lado
se não é amor
essa certeza órfã de que seremos felizes
o que seria?

(porque é amor que dá vida
porque é amor que dá cores
porque é amor que no céu abre buracos
para que deus possa sonhar)

então
escuta o meu canto embalando teu nome
e colore comigo um céu em aquarela
pois amor assim
eu sei que assusta
incomoda e desconserta

por não desejar
ser nada além disso
que poucos sabem
mas que ousam chamar

– felicidade –

domingo, 16 de julho de 2006


lizette lugo
você devia me amar menos, ela disse
e ele, sem saber como medir
trouxe nas mãos um punhado de nuvens
duas conchinhas do mar
& o coração sorrindo cores

quarta-feira, 12 de julho de 2006


pro syd
na cidade dos palhaços de gesso
aplaudem vozes tristonhas
daquela gente feita de medo
com gosto de cinzas
sem céu
sem chuva
sem tardes poentes
sem nada

na cidade dos palhaços de gesso
as crianças não brincam na rua
nem sabem das cigarras
o canto triste
a cor das estrelas
o cheiro dos sorrisos
sabem nada

domingo, 9 de julho de 2006


o adeus vê
a dor ao avesso
secretando nos ossos
medo
angústia
&
frio

o adeus traz
esperanças estreitas
impondo ao destino
quietude
descrença
&
poesia

(é quando a solidão
descobre
a fundura da chuva)

quarta-feira, 28 de junho de 2006

maria elena duque


e se tudo afunda
subtrai e desencorpa
e se tudo distancia
atropela e desfigura
o que está ao meu redor
porque não estás aqui

[minhas noites crescem
no lado oposto
onde auroras não há]


.
.
.


e se tudo estanca
fragiliza e descolore
e se tudo caduca
adoece e desimporta
o que sobrevive no meu peito
porque amputam você de mim

[minhas preces ecoam
nos cômodos vazios
onde a fé não está]

quinta-feira, 15 de junho de 2006



diz
como te esquecer
se o tempo que deveria passar
estacionou nos meus olhos
pedintes dos teus

diz
como fingir que nada houve
se as memórias que deveriam sumir
gritam na minha pele
viciada de você

diz
como fugir daqui
se todos os caminhos levam a ti
e o amanhã nada é
quando não estás comigo

[tenho fábulas pra contar
tenho soldados de chumbo pra te proteger
tenho brincadeiras de roda pra te sorrir
tenho preces pra te orar
uma alvorada de girassóis pra te amanhecer]

domingo, 4 de junho de 2006



ouço você
e meu coração sente
amor
*
ouço você
e meus ossos sabem
amor
*
ouço você
e meus anjos oram
amor
*
ouço você
e meu mundo sorri
amor
*
ouço você
e meus medos somem
amor
*
ouço você
e acredito na vida
amor
*
[é no teu colo que o menino em mim se põe a sonhar]

sexta-feira, 26 de maio de 2006




amor
uma pausa insana
quando chega antes dos sonhos
e parte ao amanhecer.

sexta-feira, 19 de maio de 2006


wayne forte


a melancolia é como um dia ensolarado
eu disse que
a melancolia
é como um dia ENSOLARADO
[nos dias de sol você não pode fingir
e tem que ser VOCÊ mesmo – sombras
abrigam-se nos ossos e deixam as ruas vazias –
nos dias de sol as pessoas sorriem
mas você não sabe mais ser feliz – retratos
arrancados do velho álbum perdem a memória –
nos dias de sol o suor escorre pela testa
e tudo o que você deseja é sair daqui – arranhões
atingem a alma quando o medo adormece]

segunda-feira, 1 de maio de 2006


PRIMEIRA AURORA E O DESPERTAR DO ESPANTALHO

Lembro das vozes preenchendo as frestas da alma
Deslizando como se tudo fosse transparente
E os segredos não pesassem nos ossos.

Segundo após segundo, sentia meu corpo embrutecer
– sem que pudesse conter a veemência do medo
fechava-me num mundo insensível que me custou caro inventar –

[ paredes brancas
chão de tacos corridos
rachaduras no teto
o céu em fagulhas
estrelas e girassóis no centro do arco-íris
o canto da cigarra engolido pela noite
a voz da minha mãe fazendo-me ninar]

– embruteci –

Encaixotei brinquedos e esperança
Desenhei um horizonte mudo
Onde palavras sangrariam enquanto durasse a dor
E as vozes continuariam distantes
Nesse lugar esquecido dentro da ausência de ti.

sexta-feira, 21 de abril de 2006

chris lawrence


CANÇÃO DESPERTA PELO SOL
VARIAÇÃO DOIS

quando os brinquedos envelhecem,
também os sonhos
assim os girassóis, quando as brincadeiras
entristecem

eu era um menino que brincava no quintal,
fazendo do velho jambeiro refúgio
quando a vida doía no peito

[eu escutava os segredos trazidos pela chuva;
eu falava a poesia das formigas e pirilampos;
eu acalentava os anjos esquecidos por deus;
eu pintava aquarelas nas memórias do jardim;
eu não sabia que um dia iria crescer


mas cresci]

– minhas mãos ficaram presas nas ranhuras do tempo –

segunda-feira, 17 de abril de 2006




CANÇÃO DESPERTA PELO SOL
VARIAÇÃO UM

soube desde cedo
que a vida é feita de dor
[só não quando corria;
menino brincando na chuva]
mas a chuva um dia passa
as brincadeiras um dia caducam
e tudo que resta
não cabe na palma das mãos

domingo, 9 de abril de 2006

salvador dali

A MENINA DESENHANDO NUVENS NO CÉU DO ESPANTALHO

- Teus cílios, aproxime-se de mim.
- Quantas vezes o sol adormeceu enquanto você sonhava?
- Não tenho sonhos, sou feito de palha e de mentiras.
- Nos teus ombros, os pássaros celebram as manhãs?
- Não os ouço, meus ouvidos guardam auroras.
-
Meus cílios, o que vês?
- As primaveras que não tive. Tua alma escrita no silêncio da chuva.







sexta-feira, 31 de março de 2006

mário eloy pereira - 1938
CANTIGA DO ESPANTALHO ENTREOLHANDO LEMBRANÇAS

AMANHECERES
Eu sou um homem de palha
Esvazio meus sentimentos
Abandonando teus cílios de chuva
Junto aos pássaros sem ninho
Que me bicam os olhos castanhos
Sob as abas do meu chapéu.
*
DEVOÇÃO
Eu sou um homem de palha
Finco-me diante do horizonte poente
Sombreando teus ombros brancos e nus
Fazendo-te dormir quando chega a madrugada
Orando baixinho ao teu lado
Pra que sonhes estrelas e amanheças girassóis.
*
PRELÚDIO
Eu sou um homem de palha
Guardo deuses febris nas minhas entranhas
Planto auroras infantes no teu horizonte
E sob as velhas roupas que me abrigam
Amarguro as raízes que me prendem ao que sou
Sempre que o frio sussurra teu nome.

sábado, 25 de março de 2006

paul lacroix



UM SOPRO, CINCO TEMPOS DISTINTOS.

O TEMPO DA RETICÊNCIA
Queria te dizer
Que o mundo é todo teu
E os erros são meus
Todos.

*

O TEMPO ESCRITO NAS FRESTAS
Sou eu quem esmurra
A inocência.
Sou eu quem sangra e mente
A beleza.

*

O TEMPO DESDITO.
Os fracassos e os girassóis que eu nunca tive
Eu os pinto diante do rio, são minhas preces ribeirinhas.
As tardes de chuva, eu as inventarei.
- eu invento memórias pra que a dor esqueça de mim -

*
REFEITO, O TEMPO.
Sob o sol pálido
O homem de palha
Rumina a solidão
Pra ser feliz

*
O TEMPO RISÍVEL
Eu faço poesia pra sangrar imagens.
Eu gesticulo sons que ninguém percebe.
Eu te amo, mas não sei dizer.
Eu te destruo, e o faço sem querer.

segunda-feira, 20 de março de 2006

cezanne



CANTIGA DE MUSGO
Olhos fixos no teto do quarto
- assim escapava aos adultos e seus mundinhos tristonhos -
Era março, o mês das palavras sem eco
Era março, o mês das cores encharcadas
Era cinco de março
Quando enluarado pela noite
De tanto sonhar
O menino inventou buracos no céu
[das suas asas, brotam meus girassóis]

domingo, 12 de março de 2006


Wayne Forte
A menina sorri –
trago meus sonhos ao jardim.

A menina sorri –
espalha cores por todos os lados.

A menina sorri –
faz a chuva primaverar flores

A menina sorri –
minhas mãos descobrem o sol

[e eu escrevo uma canção
minha pequena canção
escrita pelas letras do teu nome
nas pálpebras azuis
do meu céu-infância]

domingo, 5 de março de 2006

Miró
CANTIGA DE OLHOS D’ÁGUA
Quando chove
Na beira do rio
No meio da noite
E as estrelas cadentes
Apontam o rumo de casa
A menina sonha
A menina brinca
A menina sorri
Trazendo nas mãos
Um feixe de girassóis
O céu inteiro
Dentro dos olhos

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2006


PRELÚDIO AO HOMEM DE PALHA
vai-te antes que deus erga os olhos invejosos
e alcance a ti e aos teus
sonhos de espantalho.

vai-te antes que os rios da floresta descubram
que é das tuas margens que brotam
as brincadeiras de roda e as palavras azuis.

[a celebração da poesia e o júbilo da loucura;
a fidelidade à terra e aos presságios da chuva]

vai-te em silêncio que é pra não despertar
a ira secreta dos anjos sem asas
essas cobaias que não puderam sorrir nem amar.

vai-te e não olha pra trás
porque nada há para ser visto
porque tudo vai ficar no seu devido lugar.

[tudo vai estar como sempre esteve;
tudo sobreviverá na mais perfeita apatia]

vai-te e leva contigo tuas estrelas
que com os vaga-lumes aprenderam a brilhar
e com os dentes-de-leão a se esconder da ventania.

vai-te e deixa comigo essa lua de isopor pendurada no céu
e um candeeiro cheio de querosene e de preces
pra quando a próxima noite despertar amortalhada

[na paródia das vidas vazias e arrastadas,
pouco importa aonde pretendemos chegar]

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2006

Ghenadie Sontu


Por demais inumano
Sangro por não saber calar
E amanheço menos de mim
Dia após dia
Estação após estação
Como quem não sabe
Onde jaz a própria vida
Onde ressoam as raízes da alma
Onde sonham as formigas verdes
Escuta
Sou espantalho singrando lamúrias
Sou espantalho guardando cantigas
Sou espantalho fingindo poesia
Sou espantalho vestido de restos
Tristonho espantalho
Curvo e ensimesmado
Pois há pássaros noturnos
Repousando em meus braços
E eu não os sei aninhar.

domingo, 12 de fevereiro de 2006

desconheço a autoria da ilustração


a alma explode

[já é tarde, o sol diluindo-se em estrelas]

estilhaços de ti naquilo que fica

[diz-me como sorrir, eu preciso]

a solidão revisitada

[sob o céu, sangra o espantalho]

domingo, 5 de fevereiro de 2006


As letras que me habitam de você têm vida.

As letras que me invadem de você têm cores.

As letras que me afastam de você têm esqueleto.

As letras que me transbordam de você têm girassóis.


Minhas letras miúdas feitas de chuva.

Quando tocam o jardim,

horizonte.

Quando lambem o mar,

sussurro.

Quando desnudam o tempo,

eternidade.


Minhas letras silentes feitas de sombras.

Nas fotos espalhadas pela cama,

memórias.

Nos batimentos incontidos do coração,

sonhos.

Nas brincadeiras no meio da rua,

encantamento.

Nos teus loucos olhos castanhos,
amor.

quinta-feira, 2 de fevereiro de 2006

Outra vez digo o teu nome

estou sozinho

e nada ressoa

pelas sombras do meu entardecer.


Preciso dizê-lo

teu nome

sete mil vezes

e outras tantas mais.


Sem crer

ou alimentar

sem respirar

ou fraquejar.


Preciso repetir

preciso estrangular

escrever em letras de giz

e fazer poesia.


Preciso extirpá-lo
dia após dia

e pra sempre
maldizê-lo.

Que é pra não deixar
nada do que sinto

outra vez
selar meu abandono.

quarta-feira, 1 de fevereiro de 2006

a cigarra emudece sobre o caule da árvore
numa sangria de sons
na tarde que some
ao longo do horizonte
a tocar a pele do rio
*
desoladas,
minhas frases descansam
longe do sol
pouco antes das estrelas
mancharem o silêncio
que meus ouvidos
descobrem
assustados
quando chega o fim

sexta-feira, 27 de janeiro de 2006

aquilo que escorre lentamente por dentro do silêncio, neste quarto onde impera um alguém só [a matéria-una dos instantes que vão pra nunca mais, voltando depois, sempre, a nos rir jocosamente]
- imbecis, é o que somos quando cremos nisso de amar.
a carne é o fato; é o que deixa rastros. e nada mais importa,
você deveria saber -
aquilo que viscoso afaga-nos a dor e cinicamente ata-nos ao que se faz de todo insustentável [os sonhos-giz que tatuam nas vísceras o cheiro da ausência e abandonam as cores no fundo da alma]
- mesquinhos, é o que somos ao escrevermos nossos roteiros.
o destino é decomposição; é o que não sobrevive. e nada mais acontece,
você deveria arriscar -

quarta-feira, 25 de janeiro de 2006

noite - esmiuçadas, as cores fragilizam o instante. tudo que escapa ao peso do tempo aumenta cada vez mais o vazio das entranhas[estranhas são as formas do silêncio, sempre presentes naquilo que passou]

noite – luzes e cortes minuciosamente roteirizados. perdas e lástimas minimamente acalentadas pelas escoriações d’uma alma inquieta[incerta são as razões próprias da carne, sempre vorazes daquilo que ficou]


noite – o espantalho é incapaz de seguir adiante. embrutecido demais para ser retratado contempla a vida pelo medo, já amarelecida[aturdida, você não soube cicatrizar as amarguras do meu mundo isento de sons]

segunda-feira, 23 de janeiro de 2006

cura ainda há
para o mundo lá fora
se não formos assim tão sãos
ante aos que nos bendizem
e aos que nos maldizem,

loucos além da medida
se não formos assim tão vãos e vaidosos
nas mentiras que nos sagram os dias turbulentos e
as noites vazias também.

cura ainda há
para o mundo lá fora
se não formos assim tão medrosos
diante daqueles que descrêem na gente
e soubermos no meio dessa dor que nos dilacera
no meio dessa dor que nos apequena e sutura o sol
plantar chuva, rabiscar sorrisos, ninar igarapés
desafortunar de todo a tristeza e
escutar o azul das estrelas de depois de amanhã


[a primavera mudou de endereço, aqui não podemos mais ficar]

quinta-feira, 19 de janeiro de 2006

não, a solidão destas tardes chuvosas e úmidas de verão é incapaz de conter a ausência tua, azul.

não, é-me danoso crer na cura dos males desse mundo tão estúpido e atarefado que nos amordaça, branco.

não, sou espantalho e sobrevivo quieto ao esvoaçar desenfreado do tempo que faz tudo tão distante, ocre.


[minha matéria-prima é sonhar ensandecido o brilho inviolável dos teus olhos de menina, castanhos]