
PRELÚDIO AO HOMEM DE PALHA
vai-te antes que deus erga os olhos invejosos
e alcance a ti e aos teus
sonhos de espantalho.
vai-te antes que os rios da floresta descubram
que é das tuas margens que brotam
as brincadeiras de roda e as palavras azuis.
[a celebração da poesia e o júbilo da loucura;
a fidelidade à terra e aos presságios da chuva]
e alcance a ti e aos teus
sonhos de espantalho.
vai-te antes que os rios da floresta descubram
que é das tuas margens que brotam
as brincadeiras de roda e as palavras azuis.
[a celebração da poesia e o júbilo da loucura;
a fidelidade à terra e aos presságios da chuva]
vai-te em silêncio que é pra não despertar
a ira secreta dos anjos sem asas
essas cobaias que não puderam sorrir nem amar.
vai-te e não olha pra trás
porque nada há para ser visto
porque tudo vai ficar no seu devido lugar.
[tudo vai estar como sempre esteve;
tudo sobreviverá na mais perfeita apatia]
vai-te e leva contigo tuas estrelas
que com os vaga-lumes aprenderam a brilhar
e com os dentes-de-leão a se esconder da ventania.
vai-te e deixa comigo essa lua de isopor pendurada no céu
e um candeeiro cheio de querosene e de preces
pra quando a próxima noite despertar amortalhada
[na paródia das vidas vazias e arrastadas,
pouco importa aonde pretendemos chegar]