
yves klein
portanto
eu sei
por detrás dos meus medos
habitar um ladrão de sonhos
inconfesso sepulcro
dessa aridez incontida
(na palma das tuas mãos
eu colheria flores)
sob o luar, o espantalho. busca no céu as estrelas azuis que aninha no bolso da velha camisa, enquanto sonha noites que aos seus ombros de palha trarão de volta pirilampos. e aos seus braços, a menina que numa primavera distante amanheceu-lhe girassóis.
amor deveria ter fim
amor deveria nem começar
amor deveria ser explicado
mesmo até, rotulado
amor deveria ser esmigalhado
embalsamado
posto numa gaveta
amor deveria ser domesticado
(costurado ao lado do peito
alimentado pela rotina
um amor de mentirinha
amor-cara-vazia)
no centro da sala
diante dos olhares que julgam
– pois julgar é o que lhes cabe –
de joelhos e amortalhado
o amor é expiado
cuspido e escarrado
mas não se rende
(aglutinam-se imagens,
sons
e preces nesse quadro seco
e sem ossos)
no entanto
se não é amor
essa falta que fazes no meu coração
se não é amor
essa vontade sem fim de estar ao seu lado
se não é amor
essa certeza órfã de que seremos felizes
o que seria?
(porque é amor que dá vida
porque é amor que dá cores
porque é amor que no céu abre buracos
para que deus possa sonhar)
então
escuta o meu canto embalando teu nome
e colore comigo um céu em aquarela
pois amor assim
eu sei que assusta
incomoda e desconserta
SÓ
por não desejar
ser nada além disso
que poucos sabem
mas que ousam chamar
– felicidade –